Episiotomia e a violência contra a mulher na hora do parto

Embora ainda seja uma prática comum nas salas de parto, o corte entre a vagina e o ânus das gestantes é um assunto que gera muita divisão entre os obstetras

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Sabe o que é a episiotomia? É o corte que os médicos realizam entre a vagina e o ânus das gestantes para que o bebê saia mais facilmente do útero. Embora ainda seja uma prática comum, não há provas científicas suficientes que demonstrem que essa intervenção é realmente eficaz.

O pior é que a episiotomia traz sérios perigos para as mães: desde hematomas a um elevado risco de infecção, sem esquecer o edema e a dor durante o ato sexual.

Por isso, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já aconselhou que a episiotomia tivesse uma utilização mais limitada, com taxas de uso inferiores a 10%. Mas, só no Brasil, os números são radicalmente diferentes: mais de metade das mulheres que se submeteu a um parto vaginal passou por uma episiotomia, de acordo com as conclusões do estudo “Nascer no Brasil”, divulgado em 2014.

Por que a episiotomia continua sendo tão frequente nas salas de parto?

A episiotomia é encarada como uma subjugação da sexualidade feminina. Por exemplo, em 1999, o médico Marsden Wagner qualificou essa intervenção como uma “mutilação genital”. De resto, uma das mais influentes defensoras do parto humanizado no Brasil, a médica Melania Amorim, compartilhou no seu blog o caso de uma mãe que continuava sentindo dor na relação sexual há quase 20 anos, após passar por essa técnica. Essa história foi inclusive a base para uma campanha contra a episiotomia.

Enquanto a OMS não aponta em que contexto a episiotomia deve ser aplicada, Melania Amorim defende que não existe qualquer vantagem associada a essa técnica. Aliás, a médica, que também é professora, afirma que nem sequer ensina a episiotomia aos seus alunos. Além disso, Melania sublinha que já assistiu 400 partos e, em nenhum, essa técnica foi utilizada. “Para mim, a episiotomia deve ser banida da obstetrícia moderna”, defende a profissional.

Mas por que esse procedimento continua ainda sendo tão comum? Melania levanta duas explicações: “Por desconhecimento ou por hábito. É complicado abandonar práticas antigas. Sem esquecer que existe ainda um discurso de arrogância médica: «Sempre fiz assim ao longo da minha carreira e sempre correu tudo bem». Por outro lado, há profissionais que acreditam que o corpo da mulher é imperfeito e, por isso, depende da sua intervenção para que o parto aconteça”. Melania realça que isso não significa que o médico age por mal: simplesmente, está acostumado a acreditar que a episiotomia é fundamental. Daí que seja tão necessária uma atualização para os médicos com mais experiência.

“a episiotomia deve ser banida da obstetrícia moderna”

Para Melania, o que é indefensável é realizar essa técnica sem que as grávidas tenham autorizado, o que representa a maioria dos casos brasileiros. “É muito difícil brigar com o médico numa hora tão sensível como o parto. É por isso que defendo que cada uma das gestantes tem de detalhar antecipadamente o plano de parto para esclarecer essas e outras questões”.

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Já Andréia Moura, professora de Ginecologia e Obstetrícia, defende que está plenamente comprovado que a episiotomia não se deve aplicar em todas as pacientes, mas que, por vezes, essa é a alternativa escolhida, por o médico acreditar que não existe outra opção que garanta a saúde da mãe e do bebê.

O que é o “ponto do marido”?

Responsável pelo estudo “A formação em obstetrícia: competência e cuidado na atenção do parto”, Sonia Hotimsky abordou nesse trabalho uma prática usual associada à episiotomia: o “ponto do marido”. Esse é um ponto que é realizado no decorrer da costura da episiotomia, “apertando” a abertura da vagina um pouco mais do que estava antes da intervenção. O curioso nome se deve à uma crença de que haveria um alargamento da vagina no decorrer da gravidez e do parto e que, quando esta ficasse apertada com esse ponto, a relação sexual seria muito mais agradável para os parceiros. Sonia conta que o “ponto do marido” foi uma técnica recorrente nos hospitais onde efetuou o trabalho de campo para o seu estudo.

Na opinião de Melania Amorim, esse procedimento é uma evidência de uma postura machista e repleta de preconceitos. De acordo com a profissional, o “ponto do marido” demonstra que os médicos não acreditam que o corpo da mulher consiga parir por si só. Além disso, é uma prova de que os obstetras priorizam a satisfação dos parceiros durante a relação sexual. É como se encarassem a vagina somente como um instrumento para o sexo.

Por outro lado, o “ponto do marido” nem sequer é registrado pelos médicos. Só se sabe que esse procedimento foi realizado através dos testemunhos de pacientes ou dos seus maridos que escutaram o pessoal médico comentar que estava fazendo um ponto a mais com o objetivo de deixar a vagina mais apertada.

Descrição de diferentes tipos de cortes de episiotomia

Andréia Moura encara o “ponto do marido” de outro jeito: “No decorrer da episiotomia, alguns músculos da vagina são cortados. É por isso que é necessário ligar essa área muscular através de uma episiorrafia. Apesar de ter o nome de «ponto do marido», ele é indispensável, justamente no local onde ocorreu o corte. Além disso, esse ponto tem de ser executado corretamente para que não exista um alargamento do músculo”. Caso contrário, poderia ocorrer a ruptura do períneo, trazendo desvantagens sexuais para a paciente, devido ao relaxamento vaginal.

Sonia Hotimsky aponta que a episiotomia e o “ponto do marido” podem trazer sérios danos para o nervo do períneo, tornando a relação sexual mais dolorosa para a paciente e até menos satisfatória para o casal. O pior é quando a inexperiência fala mais alto do que o profissionalismo e o corte é maior do que o necessário: “Já testemunhei alguns procedimentos mal-executados que até podem originar um quadro de incontinência fecal”.

Previsões apontam que, no Brasil, a taxa de episiotomia deve cair para os 10%

Para Sonia, a solução passa por as pacientes serem melhor informadas sobre os cuidados obstétricos, sobre o que deve ou não ser feito e sobre como denunciar alguma falta de cuidado.

Sendo um problema transversal – afetando pacientes com diferentes graus de escolaridade –, a episiotomia pode sofrer uma evolução nos próximos tempos, sendo mais limitada: “No ensino, nesse momento, a episiotomia de rotina está sendo substituída por uma técnica mais restritiva”, conta Andréia Moura.

Aliás, a episiotomia de rotina nem é aconselhada pela própria Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. De resto, o Presidente da Comissão de Parto desse organismo, João Alfredo Steibel, acredita que a taxa de episiotomia irá diminuir de forma drástica nos próximos tempos para os 10%.

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Assista a esse testemunho de uma mamãe famosa que passou por esse procedimento:

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